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46075 https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=46075 Série “Exposições” XIII – A Exposição do Centenário pelas lentes de Augusto Malta, por Diana Ramos Andrea Wanderley 2026-09-07T09:23:35+00:00
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Série “Exposições” XIII – A Exposição do Centenário pelas lentes de Augusto Malta, por Diana Ramos

A Brasiliana Fotográfica já publicou imagens de diferentes coleções, além de artigos que abordam diversos aspectos da Exposição do Centenário da Independência, realizada entre 7 de setembro de 1922 e 24 de julho de 1923, evento muito importante para a história do Rio de Janeiro, do país e para a própria fotografia no Brasil. No artigo de hoje, o 13º da série Exposições, de autoria de Diana Ramos, uma das curadoras do portal, entre os registros preservados pela Fundação Biblioteca Nacional foram acrescentados ao nosso acervo fotográfico dois conjuntos de Augusto Malta, fotógrafo oficial da Prefeitura do Distrito Federal durante mais de três décadas. Reunidos, esses conjuntos vão além do caráter documental. Eles permitem acompanhar a transformação urbana da cidade, observar a arquitetura efêmera dos pavilhões, perceber a circulação dos visitantes e compreender como a fotografia participou da construção da imagem de um Brasil moderno.   A Exposição do Centenário pelas lentes de Augusto Malta Diana Ramos*   Quando a Exposição Internacional do Centenário da Independência abriu suas portas em setembro de 1922, o Rio de Janeiro tornou-se uma vitrine da modernidade que o Brasil pretendia apresentar ao mundo. Sobre os aterros da antiga área do Morro do Castelo ergueu-se uma cidade efêmera composta por pavilhões monumentais, jardins, canais artificiais, pontes, praças e largas avenidas, onde países de diferentes continentes exibiam suas realizações em uma celebração aos cem anos da Independência. Poucos acontecimentos da Primeira República deixaram um registro fotográfico tão amplo e diversificado quanto esse. O Portal da Brasiliana Fotográfica já publicou imagens de diferentes coleções, além de artigos que abordam diversos aspectos desse evento de importância inequívoca para a história da cidade, do país e da própria fotografia no Brasil. Entre os registros preservados pela Fundação Biblioteca Nacional acrescentamos ao portal dois conjuntos de Augusto Malta (1864–1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Distrito Federal durante mais de três décadas. Reunidos, esses conjuntos vão além do caráter documental. Eles permitem acompanhar a transformação urbana da cidade, observar a arquitetura efêmera dos pavilhões, perceber a circulação dos visitantes e compreender como a fotografia participou da construção da imagem de um Brasil moderno. A construção de uma cidade efêmera O primeiro conjunto possui caráter essencialmente documental. Formado por 113 fotografias avulsas, reúne imagens produzidas ainda durante as obras de implantação da Exposição Internacional do Centenário. Antes da inauguração oficial, Malta acompanhou sistematicamente o avanço da construção, registrando uma paisagem em constante transformação. Andaimes envolvem cúpulas e torres, operários trabalham entre pilhas de materiais, trilhos provisórios atravessam os canteiros, enquanto estruturas metálicas ainda permanecem expostas. Em diversas fotografias coexistem dois momentos da história da cidade: ao fundo surgem igrejas coloniais, remanescentes do centro histórico e o próprio Morro do Castelo em processo de desmonte; em primeiro plano, consolida-se uma nova paisagem marcada pelo concreto, pelo ferro e pela monumentalidade da arquitetura expositiva.   Augusto Malta. Exposição do Centenário do Brasil Foto 36, 15 de junho de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Em junho de 1922, Augusto Malta registra o intenso ritmo das obras da Exposição Internacional do Centenário, tendo ao fundo o Morro do Castelo em processo de demolição. A fotografia evidencia o contraste entre a antiga configuração urbana e a nova paisagem construída para as comemorações da Independência.   Essas fotografias ajudam a dimensionar o alcance das intervenções urbanas realizadas para a Exposição. A abertura da Avenida das Nações, os aterros sobre a Baía de Guanabara e a construção dos novos pavilhões alteraram profundamente a configuração daquela região da cidade. Embora produzidas como documentação técnica de uma grande obra pública, as imagens revelam constante preocupação com a composição fotográfica. Malta recorre frequentemente a pontos elevados de observação, explorando linhas de perspectiva que conduzem o olhar por toda a área da exposição e valorizam a escala do empreendimento.   Augusto Malta. Exposição do Centenário foto 41, 9 de julho de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Vista panorâmica elevada da área da Exposição. A composição conduz o olhar em direção às águas da Baía de Guanabara, delimitadas por quebra-mares e pequenos cais, tendo ao fundo a paisagem montanhosa do Rio de Janeiro.   Reunidas, essas fotografias constituem uma documentação de extraordinário valor histórico. A série acompanha diferentes etapas do empreendimento, começando pela construção, registra a inauguração e segue durante o funcionamento da Exposição, abrangendo desde os canteiros de obras até os pavilhões em plena atividade, vistas panorâmicas, interiores expositivos e fotografias noturnas. Diferentemente das imagens produzidas para álbuns comemorativos, esse conjunto documenta o processo construtivo, permitindo acompanhar uma cronologia visual da montagem da Exposição.   Acessando o link para as fotografias deste conjunto disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.   A trajetória desse conjunto também merece atenção. Originalmente composto por 130 fotografias avulsas, além de três cópias, foi incorporado ao acervo da Fundação Biblioteca Nacional, em 1948, por doação de Jorge Bailly. A única exceção é uma fotografia da inauguração do Pavilhão dos Estados Unidos, doada por Arnaldo Monteiro em 1924 e posteriormente integrada ao conjunto. Infelizmente, parte dessa coleção foi perdida em consequência do furto ocorrido na Divisão de Iconografia, em 2005. Dos 130 registros, dezessete foram subtraídos. Ainda assim, é possível conhecer parte desse material por imagens de referência geradas a partir de negativos de segunda geração, disponíveis no catálogo da Fundação Biblioteca Nacional: http://acervo.bn.gov.br/Sophia_Web/acervo/detalhe/1007549 A cidade efêmera em pleno esplendor O segundo conjunto acrescentado ao Portal apresenta um olhar distinto. Trata-se de um álbum comemorativo composto por 49 fotografias, também incorporado ao acervo da Biblioteca Nacional por doação de Jorge Bailly, em 1948, que registra a Exposição Internacional do Centenário já em pleno funcionamento. As obras foram entregues, a arquitetura está pronta, os jardins encontram-se concluídos e os espaços passam a ser ocupados pelos visitantes. A sequência das imagens acompanha quase um percurso pelo recinto expositivo, conduzindo o observador desde os portais monumentais até os pavilhões nacionais e estrangeiros, passando pelos canais, praças e áreas de convivência. Mais do que reunir belas vistas da Exposição, o álbum constrói uma narrativa visual destinada a destacar a monumentalidade e o caráter cosmopolita do evento.   Augusto Malta. Exposição de 1922: portão da Av. Rio Branco 1, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Os portais monumentais da Exposição Internacional do Centenário foram concebidos como verdadeiros arcos triunfais de tradição romana, marcando simbolicamente o ingresso do visitante em uma cidade construída para celebrar a modernidade brasileira.   A arquitetura desempenha papel central nesse percurso. Cada país procurou afirmar sua identidade nacional por meio de soluções arquitetônicas próprias, transformando os pavilhões em instrumentos de representação cultural. O álbum registra muitos dos edifícios brasileiros, além das construções erguidas pelas nações participantes, ressaltando a diversidade de linguagens presentes na Exposição. Enquanto o Pavilhão Japonês adota telhados curvos e estruturas inspiradas na tradição construtiva oriental, os pavilhões da França e da Inglaterra recorrem à inspiração clássica enquanto o México investe em uma fachada ricamente ornamentada, demonstrando como a arquitetura integrava o discurso de afirmação nacional construído para o evento.   Augusto Malta. Exposição de 1922: Dia do Japão 2, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. O Pavilhão Japonês destaca-se pelos telhados curvos, pela estrutura aparente de madeira e pelos elementos inspirados na arquitetura tradicional japonesa, como jardins e lanternas decorativas. A presença de um público majoritariamente infantil, provavelmente em visita escolar, acrescenta à cena um registro da circulação de visitantes e da atmosfera cotidiana da Exposição.   Ao fotografar esses edifícios, Augusto Malta privilegia enquadramentos predominantemente frontais, valorizando a simetria das fachadas e a riqueza de seus elementos decorativos. Apesar do protagonismo concedido à arquitetura, a dimensão humana nunca desaparece. Pequenos grupos caminham pelas avenidas, automóveis circulam entre os pavilhões e embarcações atravessam os canais artificiais. As figuras humanas raramente ocupam o centro da composição, mas estão sempre presentes, conferindo escala e vitalidade aos espaços. A água constitui outro elemento estruturador das imagens. Muito além de um recurso paisagístico, canais e espelhos d’água organizavam a circulação interna e ampliavam o efeito cenográfico da arquitetura. Em algumas fotografias, pequenas embarcações permanecem atracadas diante do Pavilhão de Caça e Pesca; em outras, hidroaviões repousam sobre as águas da Baía de Guanabara, lembrando que a aviação figurava entre as principais demonstrações tecnológicas apresentadas durante a Exposição. A presença constante da água reforça a sensação de amplitude do conjunto e cria superfícies que refletem edifícios e iluminações, recurso que Augusto Malta exploraria de maneira particularmente expressiva em suas fotografias noturnas.   Augusto Malta. Exposição de 1922: Caça e pesca n1, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Vista do Pavilhão de Caça e Pesca, evidenciando a integração entre arquitetura e água. Mais do que elemento ornamental, os canais estruturavam a organização espacial da Exposição e contribuíam para a construção da experiência visual e paisagística do visitante.     Acessando o link para as fotografias do Álbum Comemorativo do  Centenário da Independência doado por Jorfe Bailly à Biblioteca Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.   Um mesmo olhar sobre a modernidade: aspectos comuns aos dois conjuntos Embora possuam características e finalidades distintas, os dois conjuntos compartilham procedimentos que revelam a forma de trabalho de Augusto Malta e seu rigor na documentação da Exposição Internacional do Centenário. Um dos aspectos mais evidentes é a presença de inscrições gravadas diretamente nos negativos. A assinatura “Malta Phot.” — ou pequenas variações dessa identificação — permite reconhecer imediatamente a autoria das imagens. As legendas incorporadas ao próprio negativo registram, de forma sistemática, o local fotografado, a data, o número do negativo e outras informações abreviadas que permitiam reconhecer cada imagem de maneira imediata. Essa padronização revela a preocupação em associar o registro fotográfico aos seus principais dados documentais já no momento da produção, facilitando sua organização e recuperação. Mais do que simples anotações técnicas, essas inscrições evidenciam um método de trabalho cuidadosamente estruturado, compatível com a função documental que Augusto Malta desempenhava como fotógrafo oficial da Prefeitura do Distrito Federal. Também se repetem escolhas compositivas características de sua produção. A preferência por pontos elevados de observação, o rigor na verticalidade das linhas arquitetônicas e a ampla profundidade de campo conferem unidade visual aos dois conjuntos e aparecem de forma recorrente em sua obra. Não por acaso, Augusto Malta consolidou-se como um dos principais cronistas visuais das transformações urbanas do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Para conhecer mais deste fotógrafo, consulte a Cronologia de Augusto Malta disponível no Portal Brasiliana Fotográfica. Outro núcleo de especial interesse é formado pelas fotografias dos interiores dos pavilhões. Esses registros constituem uma documentação rara da museografia praticada nas grandes exposições internacionais do início do século XX. Os espaços organizam-se em longos corredores, onde vitrines envidraçadas, mobiliário de madeira, máquinas industriais, esculturas, tecidos, objetos manufaturados e peças artísticas são dispostos segundo uma lógica enciclopédica, característica desse modelo de exposição. A iluminação natural proveniente das amplas janelas laterais, é complementada por luminárias elétricas suspensas, ressaltando o papel da eletricidade não apenas como inovação tecnológica, mas também como recurso expositivo.   Augusto Malta. Exposição do Centenário do Brasil foto 102, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Interior do Pavilhão da Itália, revelando a organização simétrica das vitrines, expositores e objetos apresentados ao público durante a Exposição Internacional do Centenário.   Entre todas as imagens produzidas por Malta, as vistas noturnas ocupam um lugar singular. A iluminação elétrica — então um dos maiores símbolos da modernidade urbana — transforma completamente a paisagem da Exposição. As fachadas iluminadas refletem-se nas águas tranquilas da Baía de Guanabara, formando extensas faixas luminosas que prolongam visualmente a arquitetura. As ruas aparecem quase desertas e a ausência de movimento, consequência dos longos tempos de exposição exigidos pelos materiais fotográficos da época, confere às cenas uma atmosfera silenciosa e quase teatral.   Augusto Malta. Exposição do Centenário do Brasil foto 93, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Vista noturna da Exposição Internacional do Centenário. A longa exposição permitiu registrar simultaneamente a iluminação dos edifícios e seus reflexos contínuos sobre as águas calmas da Baía de Guanabara, produzindo uma das imagens mais emblemáticas do conjunto.   A riqueza desse acervo permite, inclusive, comparar diferentes ampliações realizadas a partir de um mesmo negativo. Embora representem exatamente a mesma tomada fotográfica, pequenas variações no processo de ampliação em papel de gelatina e prata, na revelação química, nas condições de conservação e até na digitalização alteram significativamente o contraste, a luminosidade e a resposta tonal das cópias. Cada exemplar preserva, assim, uma história material própria, demonstrando que a fotografia não se resume à imagem registrada no negativo, mas também aos processos físicos que lhe deram forma ao longo do tempo.   Augusto Malta. Exposição de 1922: Vista à noite 1, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Duas ampliações produzidas a partir do mesmo negativo, nº 9342. As diferenças de contraste, luminosidade e intensidade dos reflexos resultam de processos distintos de ampliação, revelação, envelhecimento e digitalização, demonstrando como a trajetória material de cada cópia interfere em sua aparência final.   Variações semelhantes podem ser observadas em outras imagens dos dois conjuntos, revelando que cada ampliação constitui um objeto documental único, mesmo quando deriva da mesma matriz fotográfica. A realização dessas vistas noturnas ressalta o elevado domínio técnico de Augusto Malta. Fotografar à noite em 1922 exigia equipamentos estáveis, planejamento cuidadoso e conhecimento das limitações dos materiais fotográficos disponíveis. As fotografias noturnas da Exposição constituem um capítulo à parte e ainda carecem de estudos mais aprofundados. Além das realizadas por Malta, há registros de notável complexidade técnica produzidos por Carlos Bippus, Photo Lopes e Thiele & Kollien que ampliam a compreensão das diferentes soluções empregadas para registrar, em baixa luminosidade, a arquitetura e a iluminação do evento. Embora experiências de fotografia em baixa luminosidade e com recursos de iluminação artificial já fossem conhecidas no Brasil desde o século XIX, como demonstram as experiências pioneiras de Marc Ferrez com o flash de magnésio empregado para fotografar em ambientes pouco iluminados, as imagens produzidas durante a Exposição Internacional do Centenário destacam-se pela quantidade e pela variedade dos registros noturnos. Como observa Beaumont Newhall ao tratar do desenvolvimento técnico da fotografia, o aperfeiçoamento das fontes luminosas ampliou as possibilidades de fotografar em lugares escuros, permitindo realizar imagens em condições antes muito mais restritivas. A evolução da sensibilidade dos materiais fotográficos, o aperfeiçoamento dos equipamentos e a disponibilidade de recursos de iluminação artificial contribuíram, em conjunto, para tornar as fotografias noturnas cada vez mais viáveis. Em 1922, a escala monumental da Exposição, sua intensa luz elétrica e a multiplicidade de fotógrafos envolvidos resultaram em uma documentação noturna excepcional. O contraste entre os edifícios iluminados e o céu profundamente escuro confere às imagens uma força visual que permanece impressionante mais de um século depois. Pela extensão e pela diversidade dos registros, eles ocupam um lugar de destaque na história da fotografia no Brasil. Essa relevância também se manifesta na materialidade dos exemplares preservados, que permitem acompanhar a trajetória dessas imagens ao longo do tempo. Além do conteúdo iconográfico, os próprios objetos preservam marcas de sua história. As ampliações em papel de gelatina e prata conservam excelente definição dos detalhes arquitetônicos, permitindo distinguir esculturas, ornamentos, esquadrias e até pequenas figuras humanas distribuídas pelos pavilhões. Apesar dos sinais naturais de envelhecimento — como amarelamento do papel e pequenas perdas de contraste em algumas cópias —, os conjuntos permanecem em condições bastante satisfatórias, sem comprometimento significativo da informação visual. No caso do álbum comemorativo, sua materialidade amplia ainda mais o interesse histórico do conjunto. A preservação da encadernação original permite compreender não apenas as fotografias, mas também o projeto editorial concebido para sua apresentação.   Exposição de 1922: capa, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Capa original do álbum fotográfico da Exposição Internacional do Centenário da Independência. A fotografia aplicada sobre a capa e o próprio revestimento concentram as marcas mais evidentes da ação do tempo. Decorada em baixo-relevo e inspirada em repertórios da tradição clássica e da Art Nouveau, a encadernação transforma o álbum em um objeto de interesse histórico e artístico, para além das imagens que reúne.     Para além da Exposição Embora tenham sido produzidas para documentar a Exposição Internacional do Centenário da Independência, as fotografias de Augusto Malta extrapolam os limites do evento. Os pavilhões e sua arquitetura monumental permanecem como protagonistas, mas, ao redor deles, a cidade também se revela. Ruas, embarcações, automóveis, trabalhadores, visitantes e edifícios do centro do Rio de Janeiro inserem a exposição no cotidiano da então capital federal e ampliam as possibilidades de leitura desses conjuntos. É justamente nessa convivência entre o efêmero e o cotidiano que reside uma de suas maiores riquezas. As imagens registram não apenas a arquitetura erguida para as comemorações, mas também aspectos da cultura material, da moda, dos meios de transporte, das tecnologias em circulação e das formas de sociabilidade presentes no Rio de Janeiro do início da década de 1920. A exposição deixa de ser apenas o objeto fotografado para tornar-se cenário de uma cidade em transformação. Os personagens que aparecem dispersos pelas imagens contribuem para essa leitura. Operários ainda trabalham nos canteiros de obras, funcionários recebem visitantes, engenheiros acompanham a execução dos serviços, militares circulam pelos espaços e grupos escolares percorrem os pavilhões ao lado de famílias e expositores. Embora raramente ocupem o centro da composição, essas figuras conferem escala aos edifícios e ajudam a compreender como diferentes grupos sociais vivenciaram aquele espaço. O vestuário observado nessas fotografias também oferece indícios sobre os costumes e as transformações sociais da época. Homens aparecem usando ternos escuros, gravatas e chapéus-coco, ao lado de trajes mais leves, compostos por camisas, calças de brim e boinas. Entre as mulheres, predominam saias abaixo dos joelhos e vestidos longos, acompanhados por chapéus ornamentados e luvas. Como observa Daiane Lopes Elias (2022), a indumentária presente na Exposição ultrapassava os critérios de elegância e também funcionava como marcador de distinção social, integrando a imagem de modernidade que o evento buscava projetar. A moda dos anos 1920, período que Silvana Gontijo (1987) relembra como os “anos loucos”, refletia as transformações sociais do pós-guerra. No Rio de Janeiro em processo de modernização, essa mudança pode ser observada também nas análises de Paula Acioli (2019), que identifica uma tendência à simplificação do vestuário, em contraste com o luxo predominante até então. Para além dos trajes e dos costumes, as fotografias registram outros sinais da modernidade que a Exposição procurava apresentar ao público. As fotografias também documentam a infraestrutura criada para atender ao grande fluxo de visitantes. Automóveis destinados ao transporte interno circulam entre os pavilhões, enquanto hidroaviões atracados junto à Baía de Guanabara mostram a presença da aviação entre as principais demonstrações tecnológicas da Exposição. Ao registrar esses equipamentos integrados à paisagem arquitetônica, Malta reforça visualmente a associação entre mobilidade, progresso técnico e monumentalidade, aspectos centrais do discurso de modernização construído pelas comemorações do Centenário.   Augusto Malta. Exposição do Centenário do Brasil foto 104. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Automóvel utilizado no serviço de transporte interno da Exposição Internacional do Centenário. Mais do que registrar um veículo, a fotografia exibe a infraestrutura organizada para atender ao intenso fluxo de visitantes e associa mobilidade, tecnologia e monumentalidade arquitetônica.     Augusto Malta. Exposição de 1922: Vista à noite 4, 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN. Hidroaviões atracados na Baía de Guanabara durante a Exposição. A presença da aviação integra a narrativa visual de progresso construída por Augusto Malta, incorporando uma das principais inovações tecnológicas apresentadas ao público.   Passado mais de um século, esses conjuntos permanecem como fontes privilegiadas para compreender não apenas a Exposição Internacional do Centenário, mas também a cidade que a acolheu e a cultura visual que ajudou a construir. Muito já se escreveu sobre o evento e sobre a obra de Augusto Malta. Ainda assim, cada geração formula novas perguntas aos documentos que herda. Sob essa perspectiva, as fotografias recentemente incorporadas ao Portal Brasiliana Fotográfica não apenas ampliam o conjunto de imagens disponíveis ao público, mas renovam as possibilidades de investigação sobre a arquitetura, a fotografia, a urbanização, a circulação de pessoas, a cultura material e os modos de representação do Brasil nas primeiras décadas do século XX. Observados em conjunto, os dois núcleos documentais se complementam. Enquanto o primeiro acompanha a construção da Exposição, o segundo registra sua plena realização e a imagem de modernidade que o Brasil buscava projetar internacionalmente. Um documenta a transformação física do espaço; o outro revela sua apropriação pelos visitantes e pelos países participantes. Em ambos, o olhar atento de Augusto Malta ultrapassa a simples documentação oficial e transforma acontecimentos efêmeros em registros duradouros da história urbana brasileira. A maior parte dos pavilhões desapareceu poucos anos após o encerramento da Exposição. A cidade construída para celebrar o Centenário foi desmontada, modificada ou incorporada à expansão urbana do Rio de Janeiro. Permaneceram, contudo, as fotografias. Como sintetiza Boris Kossoy, “A fotografia é um resíduo do passado. Um artefato que contém em si um fragmento determinado da realidade registrado fotograficamente. Se, por outro lado, este artefato nos oferece indícios quanto aos elementos constitutivos (assunto, fotógrafo, tecnologia) que lhe deram origem, por outro o registro visual nele contido reúne um inventário de informações acerca daquele preciso fragmento de espaço/tempo retratado” (KOSSOY, 2020, p.49) Essa compreensão da fotografia como documento histórico encontra plena expressão nos registros da Exposição Internacional do Centenário. Mais de um século depois, essas imagens continuam permitindo revisitar não apenas a arquitetura efêmera erguida para as comemorações, mas também a experiência de seus visitantes, a cultura visual da época e o projeto de modernidade que o Brasil buscava apresentar ao mundo. Como todo documento histórico, elas permanecem abertas a novas perguntas e interpretações. É justamente nessa permanente possibilidade de novas leituras que o legado de Augusto Malta se mantém vivo e o interesse por sua obra se renova.   Continue explorando a Exposição do Centenário e muito mais no Portal Brasiliana Fotográfica As imagens reunidas neste artigo constituem apenas uma parte do amplo conjunto documental divulgado em nosso Portal. O convite permanece aberto: explorar essas e outras coleções é também uma forma de renovar as perguntas sobre a história da fotografia, da cidade e da cultura visual brasileira. Explore outras fotografias da Exposição Internacional do Centenário: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/discover?rpp=10&page=11&query=%22centen%C3%A1rio+da+independ%C3%AAncia%22&group_by=none&etal=0 A cobertura da Exposição também é tema de outros artigos publicados no Portal, que abordam diferentes perspectivas sobre o evento, seus personagens e seus desdobramentos. Leia outros artigos sobre o Centenário da Independência: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?s=%22centen%C3%A1rio+da+independ%C3%AAncia%22 Se este artigo despertou seu interesse pela obra de Augusto Malta, vale a pena conhecer outras fotografias produzidas pelo autor. Seu trabalho documenta as transformações do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX e constitui uma das mais importantes referências visuais para compreender a história da cidade. Continue o passeio pelas lentes de Augusto Malta: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/discover?query=%22malta%2C+augusto%22 As comemorações do Centenário da Independência integraram um ano particularmente marcante para a história do Brasil. A série “1922 – Hoje, há 100 anos” reúne onze artigos que apresentam outros acontecimentos políticos, culturais, artísticos e sociais que também marcaram aquele ano. Conheça a série “1922 – Hoje, há 100 anos”: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?page_id=36973   Sobre as fontes: O Instituto Moreira Salles no projeto Cadernos de Marc Ferrez nos disponibiliza uma preciosa fonte utilizada para contextualizar as experiências pioneiras de Marc Ferrez com o emprego do flash de magnésio na fotografia brasileira já em 1888. O caderno técnico [Procedimentos e fórmulas], pertencente ao Fundo Família Ferrez, sob guarda do Arquivo Nacional, contém os registros do fotógrafo, entre outros procedimentos, da fórmula do pó iluminador. A fonte também apresenta a fotografia Pari – interior de mina, realizada com flash de magnésio, como exemplo do emprego desse recurso em ambientes pouco iluminados ainda em 1888.   Beaumont Newhall (1908–1993), historiador e curador norte-americano, é autor de The History of Photography: From 1839 to the Present Day, obra de referência para a história da fotografia mundial, utilizada neste artigo como fonte para a contextualização do desenvolvimento técnico da fotografia. Embora não trate especificamente da fotografia brasileira, Newhall aborda, no capítulo “The Conquest of Action”, a evolução das emulsões fotográficas, o aumento da sensibilidade dos materiais e a redução dos tempos de exposição, além de discutir, em seção dedicada ao desenvolvimento das câmeras de pequeno formato, o emprego de fontes luminosas mais potentes e do flash para fotografar em lugares escuros.   * Diana Ramos é curadora do portal Brasiliana Fotográfica e Chefe da Divisão de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional.   Fontes primárias:  MALTA, Augusto. Exposição de 1922: Rio de Janeiro. 1 álbum (49 fotos : gelatina, p&b, 16 x 22,1cm a 17,3 x 23,2cm) ; 24 x 33,5cm. MALTA, Augusto. [Exposição do Centenário do Brasil]. 130 fotos (gelatina, p&b, 17 x 23 cm e 23 x 17 cm).   Referências:  ACIOLI, Paula. Um Rio moderno. In: ACIOLI, Paula. A culpa é do Rio!: a cidade que inventou a moda do Brasil. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2019. p. 304-317. ELIAS, Daiane Lopes. Centenária Exposição: os cem anos da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil (1922-1923). Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 31, p. 63-88, set./dez. 2022. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/maracanan/article/view/69084/44887. Acesso em: 1 jul. 2026. GONTIJO, Silvana. 1920-1929: os anos loucos. In: GONTIJO, Silvana. 80 anos de moda no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 24-36. INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de Marc Ferrez: procedimentos e fórmulas. [S. l.]: Instituto Moreira Salles, [s. d.]. Disponível em: https://ims.com.br/cadernos-de-marc-ferrez/procedimentos-e-formulas/. Acesso em: 6 jul. 2026. KOSSOY, Boris. Fotografia & história. 5. ed. rev. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2020. MALTA, Augusto. Augusto Malta e o Rio de Janeiro, 1903-1936. Rio de Janeiro: G. Ermakoff, 2009. NEWHALL, Beaumont. The history of photography: from 1839 to the present. Completely rev. and enl. ed. New York: The Museum of Modern Art, 1949.


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