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rodado 290c4cc21d feat: acervo Brasiliana Fotográfica coletado e mural 3D no ar
Captura integral do acervo da Brasiliana Fotográfica (Biblioteca Nacional)
para s3://brasiliana: 13.060 itens, 12.985 com imagem de preservação, 13.059
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titulo: "Oswaldo Cruz, o Dr. Photographo, em Paris"
autor: "Andrea Wanderley"
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# Oswaldo Cruz, o Dr. Photographo, em Paris
No artigo de hoje, de autoria da jornalista Cristiane d´Avila e da historiadora Ana Luce Girão, ambas da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são divulgadas imagens inéditas de Paris, realizadas em 1907, “frutos do olhar de um célebre autor: Oswaldo Cruz”.
 
Oswaldo Cruz. Jardim do Trocadéro com a Torre Eiffel ao fundo, outubro de 1907. Paris, França / Acervo Casa de Oswaldo Cruz
 
Acessando o link para as fotografias de autoria de Oswaldo Cruz produzidas em Paris, em 1907, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.
 
O cientista flanou pelas ruas de Paris e produziu fotografias estereoscópicas com um Verascope Richard, sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes. Eram impressas em uma placa de vidro e reproduziam a sensação de profundidade de maneira bem próxima da visão real. No Brasil se destacaram na produção de registros estereoscópicos o comerciante, colecionador de selos e pinturas e fotógrafo amador carioca Guilherme dos Santos (1871 – 1966) e o francês Revert Henrique Klumb (1826 – c. 1886), “Photographo da Casa Imperial”, favorito da imperatriz Teresa Christina e professor de fotografia da princesa Isabel. A Casa Leuzinger também produziu fotografias estereoscópicas. A técnica da estereoscopia foi desenvolvida pelo escocês David Brewster (1781 – 1868), em 1844, poucos anos após a invenção da fotografia. O lançamento do Verascope, pela Maison Richard, na França, em 1893, contribuiu para que a estereoscopia voltasse a se proliferar, atraindo a atenção de fotógrafos amadores e de foto clubes europeus.
 
Verascope Richard
 
Oswaldo Cruz, o Dr. Photographo, em Paris
 Cristiane d’Avila e Ana Luce Girão*
 
Oswaldo Cruz, s/d / Acervo Casa de Oswaldo Cruz
 
Entre os meses de abril e dezembro deste ano, Brasil e França realizam uma série de eventos, em ambos os países, para reforçar as relações diplomáticas bilaterais e as parcerias entre instituições brasileiras e francesas. Trata-se da Temporada Brasil-França, ano cultural estabelecido pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (1945-) e Emmanuel Macron (1977-), que coincide com os dez anos do Acordo de Paris e a COP 30, em Belém do Pará, em dezembro próximo. A proposta é debater temas referentes a clima e transição ecológica, diversidade, democracia e globalização equitativa.
Motivado pela celebração, o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz traz a público imagens estereoscópicas inéditas de Paris, sob a guarda do arquivo histórico, datadas de 1907. O ineditismo, nesse caso, tem duplo sentido: além de não divulgadas até então, as imagens são frutos do olhar de um célebre autor: Oswaldo Cruz (1872-1917), em suas deambulações pelas ruas da capital francesa. Neste artigo, seguiremos o caminhante Dr. Photographo, alcunha carinhosamente atribuída ao médico por estudantes da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em sua flânerie pela cidade-luz, durante a qual registrou suas emblemáticas praças e monumentos.
 
Oswaldo Cruz. Praça Trocadéro em Paris, outubro de 1907. Paris, França / Acervo Casa de Oswaldo Cruz
 
“Em Paris não se escreve, vive-se.”, sentenciou o genial João do Rio, pseudônimo mais famoso do jornalista e cronista Paulo Barreto (1881-1921), em carta ao amigo português, o poeta e pedagogo João de Barros (1881-1960), em fevereiro de 1909[i]. O sentimento captado pelo flâneur da alma encantadora das ruas pode ter igualmente arrebatado seu contemporâneo na Academia Brasileira de Letras, o cientista Oswaldo Cruz , que viveu a cidade-luz registrando suas praças e monumentos por estereoscópio[ii]. Homem de seu tempo atento aos avanços tecnológicos da modernidade, Oswaldo parece ter se deslumbrado com a capital francesa, lócus da belle époque por excelência, o que o declara nas imagens aqui publicadas.
 
Oswaldo Cruz. Avenida Marceau em Paris, outubro de 1907. Paris, França / Acervo Casa de Oswaldo Cruz
 
O périplo acadêmico-científico do médico, então diretor do Instituto Soroterápico Federal (que logo passou a Instituto Oswaldo Cruz, embrião da Fiocruz), foi iniciado em Paris, de onde rumou para outras capitais da Europa, Estados Unidos e México. Como de costume à época, o roteiro do cientista pelo continente europeu começou em Lisboa, onde o “Avon”, navio transatlântico da grandiosa companhia de transporte britânica Royal Mail Steam Packet Company, aportou em 7 de agosto de 1907.
 
Sala de jantar da primeira classe do RMST Avon, 1909 / Wikipedia Commons
 
A bordo do navio, ainda em alto-mar, Cruz escreveu duas longas cartas à esposa Emília, a quem carinhosamente chamava de Miloca ou Miloquinha. Nas missivas, o cientista queixou-se: “O spleen que me devora em palavras representadas por estes garranchos (…) evade-me o espírito e assenhora-se por completo de mim”. O comentário melancólico, tão ao gosto do Decadentismo baudelairiano e dos estrangeirismos, não impediu que Oswaldo observasse que o “flirt” (flerte) “imperava em todos os cantos” do “Avon”.
 
Correspondência pessoal do Fundo Oswaldo Cruz sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Dossiê 05 – XV Exposição de Demografia e Higiene de Berlim [iii]
Após desembarcar em Lisboa, onde ficou tempo suficiente para visitar a cidade serrana de Sintra e almoçar no famoso restaurante Leão D’Ouro, partiu no mesmo dia para Paris, permanecendo alguns dias na cidade. Da capital francesa foi para Berlim e, posteriormente, Nova Iorque, Washington e Cidade do México.
O sucesso em Berlim
A viagem foi motivada pelo convite do governo alemão para que o Brasil participasse do XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, que se reuniria em Berlim, em setembro daquele ano. Representando o Brasil, o então Instituto Soroterápico Federal apresentou uma exposição composta, entre outras coisas, por peças anátomo- patológicas, coleções de mosquitos, imagens do expurgo dos mosquitos nas residências e modelo de isolamento hospitalar dos pacientes de febre amarela. No evento, os cientistas demonstraram como se deu o combate vitorioso contra a febre amarela no Rio de Janeiro.
 
O Malho, 3 de agosto de 1907
 
A exposição do Instituto Soroterápico Federal recebeu o 1º prêmio, representado por uma medalha de ouro oferecida pela Imperatriz alemã Augusta Vitória de Schleswig-Holstein (1858 – 1921). A enorme repercussão deste prêmio no Brasil trouxe um grande prestígio para Oswaldo Cruz e para o instituto que dirigia. Isso fez com que sua viagem se estendesse.
 
Medalha de Ouro da Exposição de Higiene do XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia
 
Assim, por designação do governo brasileiro, seguiu para a Cidade do México (passando antes para conhecer Nova Iorque) para participar da 3ª Convenção Sanitária Internacional das Repúblicas Americanas. Da capital mexicana partiu para Washington, uma vez que o então embaixador brasileiro, Joaquim Nabuco (1849 – 1910), agendara um encontro dele com o presidente Theodore Roosevelt (1858 – 1919). O objetivo da missão era comunicar ao chefe estadunidense a extinção da febre amarela no Rio de Janeiro.
Nessa mesma temporada, da América cruzou mais uma vez o Atlântico Norte para visitas às Escolas de Higiene e Medicina Tropical de Londres e Liverpool. Na carta que escreve de Liverpool à esposa, em 21 de dezembro de 1907, Oswaldo diz que pretende finalizar sua viagem em Paris, para descansar e comprar os presentes e vestidos que ela havia encomendado a ele. Outra ‘missão’ que deveria cumprir na capital era a promessa, também feita a Miloca, de depositar uma placa comemorativa na Igreja de Notre Dame des Victoires por uma graça recebida.
Em 19 de outubro escreveu a Egydio Salles Guerra (1858 – 1945), seu amigo e posterior biógrafo: “Depois de ter percorrido uma longa via sacra estou instalado no meu antigo “quartier dos Champs Elysées: Avda • Marignan, 17, num pequeno rez de chaussée mais ou menos confortável!”[iv].
 
Oswaldo Cruz. Interior do apartamento de Oswaldo Cruz na Rua Marignan n. 17 em Paris, outubro de 1907. Paris, França / Acervo Casa de Oswaldo Cruz
 
Em carta seguinte, datada de 5 de janeiro de 1908, se congratula com a esposa pelo aniversário de casamento de ambos, dá notícias sobre o andamento das encomendas de vestidos e chapéus, e informa que partirá de Paris em 24 do mesmo mês, devendo finalmente chegar ao Rio de Janeiro em 10 de fevereiro (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1908, sétima coluna).
O retorno a Paris, de fato, teria sido sugestão de Salles Guerra, muito preocupado com a saúde de Oswaldo Cruz. Salles Guerra havia sugerido que Oswaldo fosse para a Suíça e permanecesse algum tempo no Sanatório de Val Mont, em Montreaux para tratar de uma nefrite, recentemente diagnosticada, motivo de grande preocupação de sua família e amigos. Conselho que o amigo e “paciente” não acatou, afirmando ter horror a sanatórios.
Na última carta da série (iniciada em agosto de 1907), datada de 14 de janeiro de 1908, escrita de Paris, vê-se um Oswaldo Cruz circunspecto, que evita contatos formais e sofre com o rigor do inverno parisiense. Imerso em grande nostalgia do tempo em que morou com a esposa e os três filhos mais velhos na Rue Marbeuf, entre 1897 e 1898, relata que os lagos do Bois de Boulogne estão congelados, atraindo muitos patinadores, e pede para Miloca informar às crianças que o circo da Avenue des Champs Elysée[v] já não existe mais.
 
[i] RIO, João do. Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Org.: Cristiane d’Avila. Prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: Funarte, 2013, p.75.
[ii] Para saber mais sobre a estereoscopia, ver o interessante artigo A estereoscopia e o olhar da modernidade de Maria Isabela Mendonça dos Santos na Brasiliana Fotográfica.
[iii] As cartas de Oswaldo Cruz para sua esposa compõem este Dossiê e parte delas está transcrita em Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz – Acervos
[iv] SALES GUERRA, Egydio. Oswaldo Cruz. Primeira Edição. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Limitada, 1940, p.391.
[v] Cirque d’Été, demolido em 1900.
 
* Cristiane  d’Avila é jornalista e Ana Luce Girão é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
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