Captura integral do acervo da Brasiliana Fotográfica (Biblioteca Nacional) para s3://brasiliana: 13.060 itens, 12.985 com imagem de preservação, 13.059 com miniatura derivada, 2.137 cópias legadas e 636 posts do blog. 41.444 objetos no ledger. Os 75 itens sem preservação estão em errors.md: a página do item responde 200, mas a origem serve o bitstream com HTTP 500. Nenhum fica fora do mural, porque todos têm thumbnail. Não versionado, por viver no bucket ou ser reconstruível: catálogo, posts .jsonl, atlas .webp, sqlite de estado e logs. Credenciais ficam de fora pelo .gitignore.
382 lines
18 KiB
Markdown
382 lines
18 KiB
Markdown
---
|
||
id: 39216
|
||
url: "https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=39216"
|
||
titulo: "Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida, um ícone da “Belle Époque” carioca, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá"
|
||
autor: "Andrea Wanderley"
|
||
data: "2025-08-08T13:55:00+00:00"
|
||
categorias: ["Análise de documento", "Biografia", "Cronologia", "Curadoria", "Efemérides", "Convidados", "Preservação digital", "Sem categoria"]
|
||
handles_referenciados: ["20.500.12156.1/9889", "20.500.12156.1/9747", "20.500.12156.1/9410"]
|
||
fetched_at: "2026-09-10T10:20:07.938Z"
|
||
---
|
||
|
||
# Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida, um ícone da “Belle Époque” carioca, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá
|
||
|
||
Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida no Rio de Janeiro, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá*
|
||
|
||
Com registros de Augusto Malta (1864-1957), que foi fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936; do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) e de Marc Ferrez (1843 – 1923), brilhante cronista visual do Rio de Janeiro; o tema de nosso artigo é o Hotel Avenida, um marco arquitetônico e cultural carioca. Uma das fotografias de Marc Ferrez e as duas de Guilherme Santos são estereografias. Este último foi um entusiasta da fotografia estereoscópica, tendo sido um dos pioneiros dessa técnica no Brasil, ao adquirir, em 1905, na França, o Verascope, um sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes.
|
||
|
||
|
||
Guilherme Santos. Hotel Avenida, c. 1920. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS
|
||
|
||
|
||
Marc Ferrez. Hotel Avenida, c. 1912 . Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS
|
||
|
||
Acessando o link para as fotografias do Hotel Avenida disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.
|
||
|
||
Fon-Fon, 15 de janeiro de 1910
|
||
|
||
Foi projetado pelo baiano Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá (1838 – 1915) e inaugurado, em julho de 1908 (A Imprensa, 30 de junho, segunda coluna; 2 de julho, segunda coluna), na então recém aberta Avenida Central, posteriormente Avenida Rio Branco.
|
||
|
||
A Imprensa, 2 de julho de 1908
|
||
|
||
Caminhoá, nascido em Santo Amaro da Purificação, em 1838, foi também responsável pelos projetos da Catedral de Petrópolis e da oficina de consertos dos bondes da Companhia de Ferro Carril Jardim Botânico e atual edifício do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Havia estudado arquitetura na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro e recebeu, da Assembleia Provincial da Bahia, em 1855, a subvenção de 200 francos mensais para estudar na Europa, onde frequentou a École de Beaux-Arts de Paris e foi aspirante, em 1857, no ateliê do arquiteto francês Louis-Hyppolyte Lebas (1782 – 1862), um dos mais influentes e populares profissionais de seu tempo. Regressou ao Brasil, em 1867. Faleceu em 14 de outubro de 1915 (Jornal do Commercio, 15 de outubro de 1915, última coluna).
|
||
|
||
Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá / Fonte: AHEBA/UFBA
|
||
|
||
A localização do luxuoso Hotel Avenida, em estilo eclético, ícone da Belle Époque carioca, e a presença de uma estação de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, proprietária do hotel, diante dele, propiciou que ele fosse muito mais do que um estabelecimento de hospedagem: foi o centro de gravidade de eventos sociais e culturais da cidades, dentre eles o carnaval.
|
||
|
||
Ponto de bondes em frente ao Hotel Avenida / Careta, 18 de abril de 1914
|
||
|
||
O Hotel Avenida possuía 220 quartos, todos com telefone; restaurante, salão de jogos, água quente, iluminação elétrica e elevadores, tendo sido, na época de sua inauguração, o mais moderno e importante hotel do Brasil e um dos mais belos da América do Sul. Sua fachada frontal tinha 60 metros e cinco pavimentos. A altura do edifício era de quase 23 metros. Ao longo de sua existência hospedou importantes personalidades do cenário nacional e internacional. Abrigava a Galeria Cruzeiro, assim denominada devido a duas passagens em cruz, que ficava no andar térreo do hotel. Repleta de bares, restaurantes e cafés, dentre eles o Nacional, o Ao Franziskaner (da Brahma), a Leiteria Mineira e o Laranjada Brasil, atraía um público de turistas, artistas e intelectuais. Ocupava uma quadra delimitada pela Avenida Central, o Largo da Carioca, a então denominada Rua de Santo Antônio, atual Bittencourt da Silva; e a Rua São José.
|
||
|
||
Galeria Cruzeiro / Estilos Arquitetônicos
|
||
|
||
Leiteria Mineira na Galeria Cruzeiro / Fon-Fon, 9 de abril de 1910
|
||
|
||
Por imposição do progresso vai abaixo a velha Galeria Cruzeiro. Essa foi a manchete da primeira página do Diário de Notícias, 2 de março de 1957. A demolição do Hotel Avenida começou em outubro de 1957 (A Noite, 25 de setembro de 1957, terceira coluna; O Jornal, 15 de outubro de 1957, primeira coluna). Em seu lugar foi construído o Edifício Avenida Central, com 34 andares e o primeiro em estrutura metálica do Rio de Janeiro, inaugurado em 22 de maio de 1961 (Correio da Manhã, 23 de maio de 1961, primeira coluna; Manchete, 3 de junho de 1961). Foi projetado pelo Escritório Henrique Mindlin, também responsável pelo Shopping dos Antiquários e pelos hotéis Sheraton e Intercontinental.
|
||
Com a demolição do Hotel Avenida, começava na cidade uma transição para uma era de modernização e mudanças urbanas – muitos edifícios históricos foram demolidos e substituídos por construções modernas. Para a despedida, o Jornal do Brasil, a Rádio Jornal do Brasil e a Loja Palermo organizaram uma grande manifestação chamada Adeus à Galeria Cruzeiro, mesmo nome da música de autoria de Edel Ney e Aires Viana, cantada por Leny Eversong (1920 – 1984).
|
||
Adeus à Galeria Cruzeiro
|
||
Você viu, você leu, você ouviu
|
||
O comentário que corre pela cidade?
|
||
Você viu, você leu, você ouviu
|
||
A dolorosa verdade?
|
||
É certo que a Galeria Cruzeiro
|
||
Vai desaparecer
|
||
É a lei do progresso
|
||
Que faz a cidade crescer
|
||
Praça Onze, Café Nice
|
||
(O samba chorou
|
||
E a saudade ficou no coração do sambista)
|
||
Galeria (Galeria)
|
||
Este samba (triste samba)
|
||
É o adeus do artista
|
||
Adeus Galeria do chopp gelado
|
||
Das noites de boemia
|
||
Dos carnavais do passado
|
||
Adeus Galeria reduto do samba
|
||
De Chico, Noel e de tanta gente bamba
|
||
Galeria (adeus)
|
||
Galeria (adeus)
|
||
No dia da festa caia uma forte chuva na cidade mas personalidades importantes como Ademilde Fonseca (1921 – 2012), Altamiro Carrilho (1924 – 2012), Linda Batista (1919 – 1988), Pixinguinha (1897 – 1973), Pato Preto (1928 – 2005), Risadinha (1921 – 1976) e Silvinha Chioso (1938-), dentre outros, compareceram ao evento, que contou também com a participação de bandas militares e agremiações carnavalescas, como o Cordão da Bola Preta. Milhares de pessoas compareceram (Jornal do Brasil, 24 de novembro de 1957, sexta coluna, 26 de novembro de 1957, capa e página 13).
|
||
|
||
Augusto Malta. Hotel Avenida, c. 1920. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS
|
||
|
||
No poema A um hotel em demolição, sobre o desaparecimento do Hotel Avenida, seu autor, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), cita o fotógrafo Augusto Malta.
|
||
|
||
A um hotel em demolição
|
||
(Publicado no livro A vida passada a limpo (1973))
|
||
Carlos Drummond de Andrade
|
||
Vai, Hotel Avenida,
|
||
vai convocar teus hóspedes
|
||
no plano de outra vida.
|
||
Eras vasto vermelho,
|
||
em cada quarto havias
|
||
um ardiloso espelho.
|
||
Nele se refletia
|
||
cada figura em trânsito
|
||
e o mais que se não lia
|
||
nem mesmo pela frincha
|
||
da porta: o que um esconde,
|
||
polpa do eu, e guincha
|
||
sem se fazer ouvir.
|
||
E advindo outras faces
|
||
em contínuo devir,
|
||
o espelho eram mil máscaras
|
||
mineiroflumenpau-
|
||
listas, boas, más; caras.
|
||
50 anos-imagem
|
||
e 50 de catre
|
||
50 de engrenagem
|
||
noturna e confidente
|
||
que nos recolhe a úrica
|
||
verdade humildemente.
|
||
(Pois eras bem longevo, Hotel, e no teu bojo
|
||
o que era nojo se sorria, em pó, contigo.)
|
||
O tardo e rubro alexandrino decomposto.
|
||
Casais entrelaçados no sussurro
|
||
do carvão carioca, bondes fagulhando, políticos
|
||
politicando em mornos corredores
|
||
estrelas italianas, porteiros em êxtase
|
||
cabineiros
|
||
em pânico:
|
||
por que tanta suntuosidade se encarcera
|
||
entre quatro tabiques de comércio?
|
||
A bandeja vai tremulargentina:
|
||
desejo café geleia matutinos que sei eu.
|
||
A mulher estava nua no centro e recebeu-me
|
||
com a gravidade própria aos deuses em viagem:
|
||
Stellen Sie es auf den Tisch!
|
||
Sim, não fui teu quarteiro, nem ao menos
|
||
boy em teu sistema de comunicações louça
|
||
a serviço da prandial azáfama diurna.
|
||
Como é que vivo então os teus arquivos
|
||
e te malsinto em mim que nunca estive
|
||
em teu registro como estão os mortos
|
||
em seus compartimentos numerados?
|
||
Represento os amores que não tive
|
||
mas em ti se tiveram foice-coice.
|
||
Como escorre
|
||
escada serra abaixo a lesma
|
||
das memórias
|
||
de duzentos mil corpos que abrigaste
|
||
ficha ficha ficha ficha ficha
|
||
fichchchchch.
|
||
O 137 está chamando
|
||
depressa que o homem vai morrer
|
||
é aspirina? padre que ele quer?
|
||
Não, se ele mesmo é padre e está rezando
|
||
por conta dos pecados deste hotel
|
||
e de quaisquer outros hotéis pelo caminho
|
||
que passa de um a outro homem, que em nenhum
|
||
ponto tem princípio ou desemboque;
|
||
e é apenas caminho e sempre sempre
|
||
se povoa de gestos e partidas
|
||
e chegadas e fugas e quilômetros.
|
||
Ele reza ele morre e solitária
|
||
uma torneira
|
||
pinga
|
||
e o chuveiro
|
||
chuvilha
|
||
e a chama
|
||
azul do gás silva no banho
|
||
sobre o Largo da Carioca em flor ao sol.
|
||
(Entre tapumes não te vejo
|
||
roto desventrado poluído
|
||
imagino-te ileso emergindo dos sambas dos dobrados da polícia militar, do coro ululante de torcedores do campeonato mundial pelo rádio
|
||
a todos oferecendo, Hotel Avenida,
|
||
uma palma de cor nunca esbatida.)
|
||
Eras o Tempo e presidias
|
||
ao febril reconhecimento de dedos
|
||
amor sem pouso certo na cidade
|
||
à trama dos vigaristas, à esperança
|
||
dos empregos, à ferrugem dos governos,
|
||
à vida nacional em termos de indivíduo
|
||
e a movimentos de massa que vinham espumar
|
||
sob a arcada conventual de teus bondes.
|
||
Estavas no centro do Brasil,
|
||
nostalgias januárias balouçavam
|
||
em teu regaço, capangueiros vinham
|
||
confiar-te suas pedras, boiadeiros
|
||
pastoreavam rebanhos no terraço
|
||
e um açúcar de lágrimas caipiras
|
||
era ensacado a todo instante em envelopes
|
||
(azuis?) nos escaninhos da gerência
|
||
e eras tanto café e alguma promissória.
|
||
Que professor professa numa alcova
|
||
irreal, Direito das Coisas, doutrinando
|
||
a baratas que atarefadas não o escutam?
|
||
Que flauta insiste na sonatina sem piano
|
||
em hora de silêncio regulamentar?
|
||
E as manias de moradores antigos
|
||
que recebem à noite a visita do prefeito Passos para discutir novas técnicas urbanísticas?
|
||
E teus mortos
|
||
incomparavelmente mortos de hotel fraudados
|
||
na morte familiar a que aspiramos
|
||
como a um não morrer morrido;
|
||
mortos que é preciso despachar
|
||
rápido, não se contagiem lençóis
|
||
e guarda-pires
|
||
dessa friúra diversa que os circunda
|
||
nem haja nunca memória nesta cama
|
||
do que não seja vida na Avenida.
|
||
Ouves a ladainha em bolhas intestinas?
|
||
Balcão de mensageiros imóveis saveiros
|
||
banca de jornais para nunca e mais
|
||
alvas lavanderias de que restam estrias
|
||
bonbonnières onde o papel de prata
|
||
faz serenata em boca de mulheres
|
||
central telefônica soturnamente afônica
|
||
discos lamentação de partidos meniscos
|
||
papelariasconversariaschope da Brahma louco de quem ama
|
||
e o Bar Nacional pura afetividade
|
||
súbito ressuscita Mário de Andrade.
|
||
Que fazer do relógio
|
||
ou fazer de nós mesmos
|
||
sem tempo sem mais ponto
|
||
sem contraponto sem medida de extensão
|
||
sem sequer necrológio
|
||
enquanto em cinza foge o
|
||
impaciente bisão
|
||
a que ninguém os chifres
|
||
sujigou, aflição?
|
||
Ele marcava mar-
|
||
cavacava cava cava
|
||
e eis-nos sós marcados
|
||
de todos os falhados
|
||
amores recolhidos
|
||
relógio que não ouço
|
||
e nem me dá ouvidos
|
||
robô de puro olfato
|
||
a farejar o imenso
|
||
país do imóvel tacto
|
||
as vias que corria teu comando fecham-se
|
||
nas travessas em I
|
||
nos vagos pesadelos
|
||
nos sombrios dejetos
|
||
em que nossos projetos
|
||
se estratificaram. A ti não te destroem
|
||
como as térmitas papam
|
||
livro terra existência.
|
||
Eles sim teus ponteiros
|
||
vorazes esfarelam
|
||
a túnica de Vênus
|
||
o de mais o de menos
|
||
este verso tatuado
|
||
e tudo que hei andado
|
||
por te iludir e tudo
|
||
que nas arkademias
|
||
institutos autárquicos
|
||
históricos astutos
|
||
se ensina com malícia
|
||
sobre o evolver das coisas
|
||
ó relógio hoteleiro
|
||
deus do cauto mineiro,
|
||
silêncio,
|
||
pudicícia.
|
||
Mas tudo que moeste
|
||
hoje de ti se vinga
|
||
por artes
|
||
de pensada mandinga.
|
||
Deglutimos teu vidro
|
||
abafando a linguagem
|
||
que das próprias estilhas
|
||
se afadiga em pulsar
|
||
o minuto de espera
|
||
quando cessa na tarde
|
||
a brisa de esperar.
|
||
|
||
Rangido de criança nascendo.
|
||
|
||
Por favor, senhor poeta Martins Fontes, recite mais baixo suas odes enquanto minha senhora acaba de parir no quarto de cima, e o poeta velou a voz, mas quando o bebê aflorou ao mundo é o pai que faz poesia saltarilha e pede ao poeta que eleve o diapasão para celebrarem todos, hóspedes, camareiros e pardais, o grato alumbramento.
|
||
Anoitecias. Na cruz dos quatro caminhos, lá embaixo, apanhadores, ponteiros, engole-listas de sete prêmios repousavam degustando garapa.
|
||
Mujer malvada, yo te mataré! artistas ensaiavam nos quartos? I wil grind your bones to dust, and with your blood and it I’ll make a paste. Bagaço de cana, lá embaixo.
|
||
Todo hotel é fluir. Uma corrente
|
||
atravessa paredes, carreando o homem,
|
||
suas exalações de substância. Todo hotel
|
||
é morte, nascer de novo; passagem; se pombos
|
||
nele fazem estação, habitam o que não é de ser habitado
|
||
mas apenas cortado. As outras casas prendem
|
||
e se deixam possuir ou tentam fazê-lo, canhestras.
|
||
O espaço procura fixar-se. A vida se espacializa,
|
||
modela-se em cristais de sentimento.
|
||
A porta se fecha toda santa noite.
|
||
Tu não se encerras, não podes. A cada instante
|
||
alguém se despede de teus armários infiéis
|
||
e os que chegam já trazem a volta na maleta.
|
||
220 Fremdenzimmer e te vês sempre vazio
|
||
e o espelho reflete outro espelho
|
||
o corredor cria outro corredor
|
||
homem quando nudez indefinidamente.
|
||
|
||
|
||
No centro do Rio de Janeiro
|
||
ausência
|
||
no curral da manada dos bondes
|
||
ausência
|
||
no desfile dos sábados
|
||
no esfregar no repinicar dos blocos
|
||
ausência
|
||
nas cavatinas de Palermo
|
||
no aboio dos vespertinos
|
||
ausência
|
||
verme roendo maçã
|
||
verme roído por verme
|
||
verme autorroído
|
||
roer roendo o roer
|
||
e a ânsia de acabar, que não espera
|
||
o termo veludoso das ruínas
|
||
nem a esvoaçante morte de hidrogênio.
|
||
Eras solidão tamoia
|
||
vir a ser de casa
|
||
em vir a ser de cidade onde lagartos
|
||
|
||
|
||
Vem, ó velho Malta,
|
||
saca-me uma foto
|
||
pulvicinza efialta
|
||
desse pouso ignoto.
|
||
Junta-lhe uns quiosques
|
||
mil e novecentos,
|
||
nem iaras nem bosques
|
||
mas pobres piolhentos.
|
||
Põe como legenda
|
||
Q u e i j o I t a t i a i a
|
||
e o mais que compreenda
|
||
condição lacaia.
|
||
Que estas vias feias
|
||
muito mais que sujas
|
||
são tortas cadeias
|
||
conchas caramujas
|
||
do burro sem rabo
|
||
servo que se ignora
|
||
e de pobre-diabo
|
||
dentro, fome fora.
|
||
Velho Malta, please,
|
||
bate-me outra chapa:
|
||
hotel de marquise
|
||
maior que o rio Apa.
|
||
Lá do acento etéreo,
|
||
Malta, sub-reptício
|
||
inda não te fere o
|
||
super edifício
|
||
que deste chão surge?
|
||
Dá-me seu retrato
|
||
futuro, pois urge
|
||
documentar as sucessivas posses da terra até o juízo final e mesmo depois dele se há como três vezes três confiamos que haja um supremo ofício de registro imobiliário por cima da instantaneidade do homem e da pulverização das galáxias.
|
||
Já te lembrei bastante sem que amasse
|
||
uma pedra sequer de tuas pedras
|
||
mas teu nome — A V E N I D A — caminhava
|
||
à frente de meu verso e era mais amplo
|
||
e mais formas continha que teus cômodos
|
||
(o tempo os degradou e a morte os salva),
|
||
e onde abate o alicerce ou foge o instante
|
||
estou comprometido para sempre.
|
||
Estou comprometido para sempre,
|
||
eu que moro e desmoro há tantos anos
|
||
o Grande Hotel do Mundo sem gerência
|
||
em que nada existindo de concreto
|
||
— avenida, avenida — tenazmente
|
||
de mim mesmo sou hóspede secreto
|
||
|
||
Leia aqui a crônica Galeria, de autoria de Rubem Braga (1913 – 1990), publicada no Correio da Manhã, 10 de abril de 1953, sexta coluna.
|
||
A Brasiliana Fotográfica agradece ao jornalista e poeta André Luis Câmara (1965-) por sua colaboração na construção deste artigo.
|
||
|
||
*Este artigo foi escrito a partir de uma sugestão de Flávio Pinheiro, um dos criadores da Brasiliana Fotográfica, e é dedicado a ele.
|
||
|
||
Obras de pavimentação do Largo da Carioca. À direita, o Hotel Avenida, 17 de fevereiro de 1941. Rio de Janeiro, RJ / Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945), página 98 – Acervo AGCRJ
|
||
|
||
Andrea C.T. Wanderley
|
||
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
|
||
|
||
Fontes:
|
||
Agência Brasil
|
||
Dicionário de Belas Artes UFBA
|
||
Folha do Centro, junho de 1921
|
||
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
|
||
PAIVA, Claudia dos Reis. Abrindo passagem para o futuro: Galeria Pio X. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ambiente Construído, 2018.
|
||
PEREIRA, Sonia Gomes. O Ensino de Arquitetura e a Trajetória dos Alunos Brasileiros na École des Beaux-Arts em Paris no Século XIX. XXII Colóquio Brasileiro de História da Arte, 2002.
|
||
Site Discografia Brasileira – IMS
|
||
Site Estilos Arquitetônicos
|
||
Site Rio de Janeiro Aqui
|
||
Site Urbe Carioca
|
||
Youtube – Hotel Avenida
|
||
|
||
---
|
||
|
||
**Itens do acervo referenciados neste post:**
|
||
|
||
- `20.500.12156.1/9889` — `itens/20.500.12156.1_9889/`
|
||
- `20.500.12156.1/9747` — `itens/20.500.12156.1_9747/`
|
||
- `20.500.12156.1/9410` — `itens/20.500.12156.1_9410/`
|
||
|