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titulo: "Duas fotos, por dois “Antônios”: as imagens da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura por Andrea Wanderley e Carlos Lima Junior"
autor: "Andrea Wanderley"
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# Duas fotos, por dois “Antônios”: as imagens da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura por Andrea Wanderley e Carlos Lima Junior
A memória visual da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura, realizada em 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, organizada pela “Imprensa Fluminense“, ficou preservada por duas fotografias. Uma delas, de autoria de Luiz Antonio Ferreira, hoje pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, foi bastante disseminada logo após sua produção. A de Antonio de Barros Araújo, pertencente ao acervo do Musée Louis-Philippe, na França, e recentemente descoberta por Carlos Lima Junior, nem tanto. Esses dois registros fotográficos são o tema do artigo de hoje, “Duas fotos, por dois “Antônios”: as imagens da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura celebrada em 17 de maio de 1888“, escrito por Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal; e pelo já citado Carlos Lima Junior, docente do Departamento de História da Unifesp.
 
Duas fotos, por dois “Antônios”: as imagens da Missa Campal de Ação de Graças
pela Abolição da Escravatura celebrada em 17 de maio de 1888
Andrea Wanderley & Carlos Lima Junior*
 
Na manhã do dia 17 de maio de 1888 não foram poucas as carruagens que se deslocaram de diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro em direção à praça d. Pedro I, no Campo de São Cristóvão. E muitas foram as pessoas – muitas mesmo – que se deslocaram até lá a pé. Tal mobilização tinha motivo certo: a Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura, realizada poucos dias depois da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio. Para a celebração solene que congregava diversos setores da sociedade civil e militar, um altar foi especialmente armado, alocado próximo da tribuna reservada para a família imperial. A princesa Isabel (1846-1921) havia sido convidada diretamente pela “Imprensa Fluminense”, comissão organizadora do evento religioso. De acordo com os jornais da época, sob um “céu pardacento”, reuniram-se por volta de 30 mil pessoas em júbilo pela Abolição no Brasil (Gazeta de Notícias, 18 de maio de 1888, quarta coluna).
Para além dos inúmeros registros que se veicularam a respeito da Missa nos mais diversos folhetins da corte do Rio, a memória visual da celebração ficou preservada a partir de duas fotografias – uma delas, bastante disseminada logo após a sua produção; já a outra, nem tanto.
Olhando para as duas imagens da Missa Campal, a primeira diferença que salta aos olhos é a perspectiva. Enquanto a fotografia produzida por Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?) destaca o palanque onde estavam as autoridades, a de autoria de Antonio de Barros Araújo (18? -?) mostra um panorama mais amplo, com a presença de muitas carruagens, onde a dimensão pública do evento fica mais evidente. Uma seria uma imagem mais oficial, em que a princesa Isabel tem protagonismo. A outra, mais mundana, tem a multidão como o tema central do registro.
Antonio Luiz Ferreira já era um conhecido fotógrafo, enquanto o abolicionista Antonio de Barros Araujo era um fotógrafo amador – sua atividade profissional era ligada ao comércio, estabelecido na rua do Ouvidor, no centro do Rio. Os dois levaram suas fotografias à redação de jornais afamados. Ferreira a levou às redações do Diário de Notícias e de O Paiz (Diário de Notícias, 3 de junho de 1888, sexta coluna; e O Paiz, 3 de junho de 1888, sétima coluna). Já Barros de Araújo a exibiu na Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 14 de junho de 1888, terceira coluna). A estratégia tinha por finalidade disseminar a existência das imagens produzidas especialmente para resguardar a memória do feito da Abolição a partir de uma linguagem tida por moderna à época, como era a fotografia.
Segundo veiculado na imprensa, a foto de Ferreira era de uma fidelidade pasmosa, media 52 x 32 cm e era emoldurada em pelúcia auriverde e suas margens tinham iluminuras realizadas pelo calígrafo R. Santos (18? -?). O registro de Barros de Araújo, por sua vez, era ricamente emoldurado em pelluche de duas cores e possuia 11,5 x 49 centímetros. As duas imagens seriam oferecidas à princesa Isabel.
 
Diario de Notícias, 3 de junho de 1888
 
O Paiz, 3 de junho de 1888
 
Gazeta de Notícias, 14 de junho de 1888
 
Importante pensar na trajetória dessas duas fotos, produzidas por esses dois “Antônios”: a de autoria de Luiz Ferreira está no acervo do Instituto Moreira Salles (IMS) e faz parte da coleção dom João de Orleans e Bragança. A de Antonio de Barros Araújo está preservada no Musée Louis-Philippe, situado na cidade de Eu, ao norte da Normandia, na França
 
Antônio Luiz Ferreira. Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, 1888. São Cristóvão, Rio de Janeiro / Acervo IMS
 
O fato de a fotografia de Ferreira ter sido adquirida em comodato pelo IMS e a descoberta da presença de Machado de Assis (1839 – 1908) no palanque das autoridades, realizada por Andrea Wanderley (1964 – ), editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, e revelada pelo portal na publicação Missa Campal de 17 de maio de 1888, de 17 de maio de 2015, reviveu a imagem. Gerou matérias de jornal, de televisão e diversos artigos, dentre eles Machado de Assis vai à missa, de autoria do historiador José Murilo de Carvalho (1939 – 2023), publicado também aqui no portal, em 29 de maio de 2015. Além disso, várias outras personalidades foram identificadas no registro, dando vida e mais contexto à imagem, que renasceu!
Mais recentemente, Carlos Lima Junior (1987 -), historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), durante sua pesquisa de pós-doutorado financiada pela Fapesp e realizada entre 2022 e 2024 no Departamento de História da Unicamp, com período de pesquisa na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, na França, redescobriu a foto produzida por Antônio de Barros Araújo. Esquecida após o fim do Império, a foto foi possivelmente enviada junto com a coleção privada da princesa Isabel para a França, quando do exílio da família imperial por ocasião da Proclamação da República. A obra se encontra na reserva técnica do acervo do Musée Louis-Philippe, situado no Castelo d’Eu, antiga residência da princesa no exílio. Ficou inédita durante mais de um século. Sua redescoberta foi celebrada tanto pelo meio acadêmico como pela imprensa (Revista de História da Arte e da Cultura, Campinas SP,v.6, n.1,jan-jun2025; Brasiliana Fotográfica, 17 de maio de 2026). Destacamos aqui um trecho do comentário feito pela professora e historiadora Lilia Schwarcz (1957 – ) acerca do assunto: … E ela nos ajuda a entender como se construiu a ideia de Isabel como “redentora” da abolição, além de mostrar a dimensão popular daquele momento histórico.
 
Antonio de Barros Araújo. A Sua Alteza a Princesa Imperial. Missa Campal 17 de Maio .1888.Fotografia, 42, 5 x 79 cm (com moldura); 11,5 x 49 cm (sem moldura). Musée Louis-Philippe, Le Château d’Eu, Normandia, França.
 
Antonio de Barros Araújo. A Sua Alteza a Princesa Imperial. Missa Campal 17 de Maio 1888. (Detalhe).Fotografia, 42, 5 x 79 cm (com moldura); 11,5 x 49 cm (sem moldura). Musée Louis-Philippe, Le Château d’Eu, Normandia, França.
 
A história instigante desses dois registros provoca reflexões em torno dos caminhos por eles percorridos, seus arquivamentos e esquecimentos. Evidencia também o valor das pesquisas históricas nos acervos fotográficos, que podem gerar novas perguntas ao passado, por intermédio das imagens que chegam até nós, no presente.
 
*Andrea Wanderley é editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica & Carlos Lima Junior é docente do Departamento de História da Unifesp.
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**Itens do acervo referenciados neste post:**
- `20.500.12156.1/1795` — `itens/20.500.12156.1_1795/`