857ª Reunião Ordinária do Conselho de Administração do BRB VOTO 09 - ITEM 11 - Revisão dos Indicadores da Declaração de Apetite por Riscos (RAS) - 7ª Versão 19 de dezembro de 2024 # Senhor Presidente, Senhores Conselheiros, Apresento minha posição referente à Revisão dos Indicadores da Declaração de Apetite por Riscos (RAS) - 7ª versão, proposta pela diretoria executiva do BRB, embasada na análise crítica e técnica desenvolvida a partir do rating da Fitch de novembro de 2024 e dos documentos apresentados. # 1. Introdução A presente análise busca verificar se a RAS proposta corrige os problemas estruturais apontados pela Fitch, com foco na sustentabilidade do banco no médio e longo prazo, especialmente: 1. Pressão sobre o capital regulatório; 2. Qualidade dos ativos e concentração de riscos; 3. Práticas recorrentes de venda de ativos como solução de curto prazo; 4. Fragilidade dos indicadores de riscos operacionais, falhas sistêmicas e fraudes. # 2. Problemas de Médio e Longo Prazo Apontados pela Fitch A Fitch destacou como principal fragilidade do BRB: # 1. Capital Regulatório Insuficiente no Longo Prazo: - O banco depende da venda de ativos e carteiras imobiliárias para equilibrar os índices de capital no curto prazo. - A prática não é sustentável e compromete o patrimônio no médio e longo prazo. # 2. Gestão de Qualidade dos Ativos: - Concentração em carteiras imobiliárias e de crédito corporativo, com baixo retorno ajustado ao risco (RAROC). - Falta de estratégias efetivas para melhorar a qualidade dos ativos e reduzir a concentração. # 3. Práticas de Curtíssimo Prazo: ----- - A diretoria adota soluções paliativas, sem implementar políticas estruturais para preservar o capital e a resiliência financeira no longo prazo. # 3. Avaliação da RAS Proposta (7ª Versão) Frente ao Rating da Fitch Abaixo, analisamos criticamente os principais indicadores da RAS proposta para verificar se os problemas apontados pela Fitch foram corrigidos: # 3.1. Pressão sobre o Capital Regulatório RAS Proposta: Não apresenta indicadores específicos voltados para a gestão do consumo de capital em operações de risco elevado (ex. créditos imobiliários e corporativos). Assim, - Não há limites de concentração estabelecidos para operações de grande porte. - A proposta não apresenta métricas que alinhem o consumo de capital **ao retorno ajustado ao risco (RAROC).** - Falta uma estratégia clara para reduzir o APR e liberar capital para crescimento sustentável. # 3.2. Fraudes Externas e Risco Operacional RAS Proposta: Introduz indicadores para Fraudes Externas em canais físicos, eletrônicos e cartões de crédito, mas os limites propostos (ex.: ≤0,03% e ≤1,50% no cartão de crédito) não têm correlação estatística com a capacidade histórica de perdas do banco. Assim não há menção de investimentos em infraestrutura tecnológica para mitigar as falhas sistêmicas apontadas pela Fitch. A Fitch identificou fragilidades operacionais que exigem melhoria imediata nos **controles e monitoramento. A RAS proposta, embora crie indicadores, não apresenta medidas estruturais para fortalecer os processos e sistemas de** controle. # 3.3. Qualidade dos Ativos e Grandes Exposições **RAS Proposta:** Não traz limites **específicos para** 1 - **Operações** **concentradas em segmentos de risco elevado, e Monitoramento detalhado dos** impactos de grandes operações no capital regulatório. Não há indicadores que sinalizem a exposição excessiva a créditos imobiliários **e grandes grupos.** ----- A Fitch mencionou que a qualidade dos ativos é um fator crítico, mas a RAS proposta não oferece mecanismos práticos para corrigir esse ponto. # 4. Análise da RAS Proposta Frente aos Problemas Estruturais # 4.1. Métricas Curtoprazistas A RAS proposta prioriza indicadores de curto prazo, como fraudes, falhas sistêmicas e perdas operacionais, mas: - Não aborda indicadores estratégicos que protejam o capital regulatório ao longo do tempo. - Não define limites claros para concentração de ativos em carteiras de alto risco, deixando o banco vulnerável a choques econômicos no médio prazo. Assim a RAS proposta não corrige os problemas estruturais no horizonte de médio e longo prazo. # 4.2. Pressão sobre o Capital e Venda de Ativos A prática recorrente da diretoria de vender ativos e carteiras para equilibrar o índice de Basileia: - Compromete o patrimônio do banco. - Reduz a capacidade de geração de receita futura. - Não é acompanhada de estratégias para reduzir o consumo de capital ou melhorar o retorno ajustado ao risco das carteiras. # Assim a RAS ignora o principal fator de fragilidade de capital identificado pela Fitch. # 4.3. Gestão Deficiente da Qualidade dos Ativos A RAS proposta não apresenta: - Indicadores de monitoramento e mitigação da concentração de riscos em carteiras imobiliárias e grandes créditos corporativos. - Estratégias para diversificação de ativos e alocação eficiente do capital. Assim a RAS mantém a exposição crítica a riscos, sem medidas estruturais para melhorar a qualidade dos ativos. Essa minha posição sustentada desde a reunião de analise do relatório de riscos do primeiro trimestre de 2023 reflete a necessidade de defender a solidez do banco e a sustentabilidade de longo prazo, garantindo o cumprimento das melhores práticas de gestão de riscos e o atendimento às exigências regulatórias. ----- Penso que os itens abaixo devem ser reanalisados pela área de risco, começando pela **Metodologia do IRRBB, que** apresenta uma dependência histórica da métrica ΔNII (Resultado de Intermediação Financeira) como ponderador principal (60%) em detrimento de ΔEVE (Valor Econômico), conforme os próprios dados apresentados. A nova equação proposta pIRRBB = max(ΔNII; PVE) não reflete plenamente a volatilidade de longo prazo, visto que o ΔEVE, mesmo com altas variações (ex: maio e agosto de 2023), não impactou a parcela na mesma proporção. **Liquidez: A inclusão de FCP para substituir FCPA e FCPE é um avanço técnico, mas** não resolve a vulnerabilidade estrutural das métricas. **LCR (Liquidity Coverage Ratio): Apesar de proposto como um índice complementar, ele** ainda não é obrigatório para Segmento 3, e a relação ILCP-LCR apresenta diferenças metodológicas significativas (projeções internas vs modelo regulatório). Assim o valor da Reserva Mínima de Liquidez (RML), embora calibrado com cenários de estresse, não incorpora de maneira robusta as operações **pontuais** **recorrentes (exemplo: aquisição de carteiras de crédito).** **Exposição a Risco de Mercado: A decisão de manter o limite atual para câmbio e FIPs apresenta pouca justificativa técnica, especialmente em um cenário econômico** instável. A proposta de manutenção das métricas para Value at Risk (VaR) e de excluir FIPs do cálculo ignora o impacto potencial da volatilidade no capital regulatório. **Impacto no Rating e Gestão de Riscos: O rating anterior indicou fragilidades no** gerenciamento de riscos, especialmente liquidez e exposição ao risco de juros. A RAS proposta não resolve o problema estrutural apontado pelo rating - a falta de **integração robusta das métricas de curto e longo prazo no gerenciamento de liquidez** e IRRBB. A nova metodologia de IRRBB continua priorizando o curto prazo em detrimento de uma visão de valorização econômica de longo prazo. **Incongruências e Falhas Metodológicas: A RAS proposta sugere uma elevação gradual** da parcela IRRBB via phase-in, mas sem garantias de que o capital será suficiente para absorver perdas em cenários adversos. # A ausência de análise integrada entre risco de mercado, liquidez e impacto no **capital do banco expõe a instituição a fragilidades sistêmicas.** # Recomendações Técnicas que acredito serem necessárias: - Revisar os ponderadores entre ΔNII e ΔEVE, considerando cenários de longo prazo mais robustos. - Implementar um acompanhamento rigoroso do LCR como indicador complementar e integrá-lo ao ILCP. ----- - Revisar os limites de exposição a câmbio, FIPs e Value at Risk, com análises de sensibilidade aprofundadas. - Fortalecer a reserva de liquidez, incorporando operações recorrentes como aquisições de carteiras. **Pressão Estrutural nos Indicadores de Capital: O relatório da Moody's (maio/2024)** aponta que o INI abaixo de 10% é o fator limitante para o crescimento da carteira de crédito e representa risco de rebaixamento adicional. Comparação com bancos do Segmento S3: O BRB apresenta indicadores muito abaixo da média, conforme demonstrado: **ICP: 7,53% (média: 11,37%; diferença de -3,84 p.p.). INI: 9,11% (média: 12,67%; diferença de -3,56 p.p.). IB: 14,29% (média: 14,86%; diferença de -0,57 p.p.)** # A RAS não propõe ações concretas para recompor esses níveis de forma sustentável no curto e médio prazo. **Margem de Capital: A Margem sobre o PR é baseada no IRRBB e ACP, mas não leva** em conta o aumento progressivo do risco de crédito decorrente do crescimento da carteira. **Risco Não Mitigado: Não há inclusão de provisões robustas ou estratégias de hedge que** absorvam potenciais perdas, especialmente em cenários de estresse econômico. **Metas Irrealistas: A projeção do IB (Índice de Basileia) e do INI para 2029 não possui** embasamento técnico suficiente: - A falta de um plano detalhado de aumento de capital e revisão das **ponderações de risco compromete** a credibilidade das metas apresentadas. - A evolução de alerta e extrapolação é gradual, mas não reflete a **urgência apontada pelo rating.** **Omissão de Riscos Estruturais: O relatório afirma que "não foram verificadas questões não toleradas", mas o próprio histórico recente demonstra:** **- Pressão constante no capital.** - Ausência de margem adequada para crescimento ou absorção de choques. - Impacto negativo direto no rating e consequente aumento no custo de **captação.** **Impacto nos Ratings: Moody's e Fitch reforçaram a importância do ICP e INI como** principais balizadores. ----- # A RAS não apresenta medidas eficazes para elevar consistentemente esses índices, expondo o banco a risco de novos rebaixamentos. # Assim sugiro: # 1. Plano Imediato de Capitalização: Implementar um plano de aumento de **capital realista e estruturado, garantindo que o INI atinja patamares superiores a 10%. Para isso tem de chamar o controlador GDF.** # 2. Revisão dos Limites de Risco: Propor limites mais conservadores para o RWA de crédito, em especial para carteiras de maior risco. 3. **Provisões e Hedge Estratégico: Incorporar estratégias de hedge e elevar** provisões para mitigar riscos adicionais. 4. **Alinhamento com Ratings: Revisar a RAS com base nas recomendações diretas** das agências de rating, assegurando maior transparência e consistência nos indicadores. 5. **Cenários de Estresse Realistas: Apresentar testes de estresse robustos que** demonstrem a resiliência do banco em cenários adversos. A 7ª versão da RAS, apesar de incluir indicadores relevantes (ICP e INI), não resolve o **problema central identificado pelas agências de rating. A ausência de um plano** estruturado de capitalização e de estratégias robustas para mitigar os riscos de crédito e mercado mantém o banco vulnerável, com impacto direto na sua avaliação de risco e **custo de captação.** # 5. Conclusão e Recomendação Diante dos fatos apresentados, rejeito a aprovação da RAS proposta (7ª versão) por entender que: 1. A proposta não resolve os problemas estruturais do banco, com foco excessivo no curto prazo. 2. A RAS ignora a necessidade de indicadores estratégicos para proteger o capital e reduzir o risco no médio e longo prazo. 3. Não há soluções efetivas para mitigar a concentração de ativos, melhorar a qualidade das carteiras ou reduzir o consumo de capital. Recomendo que a diretoria executiva: 1. Elabore uma nova proposta, com indicadores de capital focados na sustentabilidade de médio e longo prazo. 2. Apresente estratégias de redução de risco e diversificação de ativos. 3. Suspenda práticas recorrentes de venda de ativos, priorizando soluções estruturais para preservação do patrimônio do banco. 4. Inclua indicadores de retorno ajustado ao risco (RAROC) para garantir eficiência na alocação do capital. # 6. Registro em Ata ----- Solicito que o presente voto seja integralmente transcrito na ata da 857ª reunião do Conselho de Administração, nos termos das disposições normativas. Atenciosamente, Romes Gonçalves Ribeiro Conselheiro de Administração - BRB Banco de Brasília